Aquela sensação «até ao osso»
Muitas pessoas descrevem uma dor surda. Profunda. «Cá dentro». «Até ao osso».
É uma linguagem natural.
O corpo não te entrega uma etiqueta a dizer: músculo, tendão, osso, articulação.
Seria prático. Não funciona assim.
Porque é que a dor profunda «parece» do osso
Na avaliação da dor musculoesquelética (de músculos, ossos e articulações), a qualidade da sensação não localiza com precisão a estrutura responsável.
Uma ficha informativa daIASP (associação internacional para o estudo da dor) di-lo com clareza:
- esta dor é muitas vezes surda e difusa;
- pode ser referida (sentida longe da zona que a gera);
- a localização nos músculos é fraca;
- é difícil distinguir, só pela sensação, a dor de tendões, ligamentos, ossos, articulações ou cápsulas.
Portanto, sim: podes sentir algo «nos ossos» sem que isso seja, por si só, a prova de uma lesão óssea.
E o inverso: um problema no osso nem sempre chega com uma etiqueta sensorial tão clara como um sinal de trânsito.
O que se pode dizer (com calma)
Em linguagem simples, pode dizer-se que:
- a dor é uma experiência pessoal (definição e notas da IASP 2020);
- não é um «GPS» infalível;
- estruturas profundas — músculo, periósteo (o «revestimento» do osso), articulações e outros tecidos — podem dar sensações profundas e referidas;
- a frase «nos ossos» merece ser ouvida e respeitada.
Segundo a terminologia da IASP, dor e nocicepção não coincidem.
A nocicepção é o sinal nervoso.
A dor é aquilo que vives.
Da palavra que usas para a descrever não se deduz a doença.
E da atividade dos nervos não se deduz, por si só, a experiência de dor.
O que não se pode deduzir sozinho
Só a partir da frase «doem-me os ossos» não podes concluir:
- osteoporose, fratura, tumor, infeção ou «inflamação do osso»;
- que «seja só muscular» e, portanto, irrelevante;
- se é preciso ou não uma radiografia ou uma ressonância;
- que baste um exercício, ou o repouso absoluto, «e pronto».
Estas escolhas exigem anamnese (a tua história), observação e, se necessário, exames dirigidos.
Mais vale evitar dois desportos radicais: o autodiagnóstico pela internet e a desvalorização a todo o custo.
Quando é útil (ou urgente) uma avaliação
Indicações gerais. A contextualizar sempre no teu caso.
Alinhadas com o espírito dos recursos clínicos NICE CKS sobre lombalgia e ciática relativamente aos sinais de alarme.
Avaliação rápida ou urgente se surgirem, por exemplo:
- dor óssea ou nas costas forte, que piora, à noite, e não melhora com o repouso;
- história conhecida de cancro e nova dor na coluna ou nos ossos;
- febre, mal-estar geral, perda de peso inexplicada;
- traumatismo importante — ou traumatismo ligeiro se tens osteoporose conhecida ou tomas corticoides há muito tempo;
- inchaço local, deformidade, incapacidade de apoiar peso no membro;
- défices neurológicos que avançam, problemas na bexiga ou no intestino, anestesia «em sela» (perda de sensibilidade na zona do períneo).
Avaliação programada mesmo sem urgência, se a dor profunda se mantém, perturba o sono, o trabalho ou o movimento, ou te preocupa.
Um profissional ajuda a separar causas comuns de situações que merecem investigação.
Ouvir sem assustar
Perceber que «nos ossos» é muitas vezes uma descrição ambígua não significa ignorar o sintoma.
Significa:
- ouvi-lo;
- descrevê-lo bem (onde, quando, o que o agrava ou alivia, outros sintomas);
- decidir com um profissional se e como aprofundar.
O objetivo não é tranquilizar a todo o custo.
Nem alarmar por desporto.
É orientar.
QUARANTA DOLORI™